A propaganda da Prefeitura Municipal no rádio anunciava shows e obras como presentes para o povo de Campina Grande. No Twitter, um secretário municipal citava o recapeamento de uma avenida como um presente da PMCG para a cidade. Da mesma forma, assessores do Governo do Estado falavam que os convênios e obras lançados nesta segunda-feira eram para presentear a Rainha da Borborema.
O termo usado pelos auxiliares do Município e do Estado, “presente”, revela a visão que há tempos quem ocupa o poder procura transmitir à população: qualquer ação pública deve ser vista como um favor, um gesto de bondade do governante, pelo qual o povo deve ficar grato eternamente.
Mais do que um discurso equivocado, esse tipo de declaração afronta a população, que é quem banca integralmente qualquer obra realizada na cidade – bem como os shows alardeados como grande homenagem ao nosso município.
Presente é aquilo que se dá pagando do próprio bolso. Todavia, as bandas musicais, o recapeamento das vias, as obras firmadas em convênios, tudo é pago com o suor do trabalhador, que sustenta o poder público por meio da sufocante e quase onipresente carga tributária.
É também uma afronta porque discursos assim tratam a todos nós como se fôssemos incapazes de discernir, como se fôssemos criancinhas que, inocentes, acreditam piamente que o presente sob a árvore de Natal foi trazido à noite por um bondoso Papai Noel, ou as moedas debaixo do travesseiro foram ali depositadas pela Fada do Dente.
Por fim, é uma afronta porque, quando obras de pequeno porte, como um simples (embora importante) recapeamento, são tratadas como presentes dignos de festa, querem com isso dizer que Campina Grande precisa soltar fogos e prestar eterno tributo a seus “benfeitores” porque “deram” à cidade uma “lembrancinha”. Ou seja, é preciso não apenas nos contentarmos, mas ainda ficar radiantes, por tão pouco.
Esse tipo de discurso precisa ser repudiado e eliminado da política paraibana e, sobretudo, campinense. Devemos nos indignar quando auxiliares de governos querem tratar políticas públicas e ações básicas como magníficos presentes a justificarem agradecimentos eternos.
Nada que se faz por uma cidade, ainda mais uma cidade tão importante quanto Campina Grande, pode ser tratado como favor, como presente. Até porque, por muito que fosse feito, ainda seria pouco, afinal, Campina Grande é digna de muito mais. Principalmente de mais respeito!







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